Doce Tempo
Ainda lembro um tempo onde eu podia comer sem nenhum eco em minha mente me mandando conferir: quantas calorias têm? E que tempo bom!
Isso já faz pelos menos uns 15 anos, mas me lembra que, além de não existir essa voz, existia mais prazer em se alimentar de qualquer coisa, como uma manga ou um copo de leite integral, por exemplo.
Tudo era menos neurótico que agora, talvez os cuidados com a saúde fossem menores também, mas o bom é que havia menos culpa. O modelo de beleza não era tão inacessível e maçante como é hoje, em que quanto mais magra melhor. Agora o corpo perfeito está acima de qualquer sabor.
Feliz da mulher que não se preocupa com a tabela calórica atrás dos produtos ou que não sabe de cor qual a quantidade contida em delícias como chocolate, sorvete ou mesmo pipoca. E ainda melhor é aquela que não fica pensando no quanto vai consumir antes de dispor num prato os alimentos das principais refeições do dia.
Ninguém merece isso na verdade, mas só as mulheres podem se entender quando o assunto é caloria. As cobranças são cada vez maiores, os números de jeans e biquínis cada vez menores e não é à toa que as academias estão abarrotadas. Daí, se você prefere uma postura mais contida e se não acompanha seu namorado nos petiscos de bar, nos fast foods, por exemplo, ele te chamará de fresca. Se você cai na dele, logo vai te chamar de gorda.
E nem sei se somos a Geração Saúde. Talvez possa até ser, mas com um pouco mais de mau humor, pois se não bastasse as milhares de cobranças do dia-a-dia, ainda somos obrigadas a nos privar das coisas que gostamos, por que a maioria delas está cheia de calorias neuróticas. E nem se trata de comer menos, o problema não é a quantidade, mas sim essa cultura do que pode e não pode.
Às vezes, naquele período do mês em que ignoramos qualquer convenção nutricional, ou melhor dizendo, na TPM, deixamos de lado a maldita tabela para nos deliciarmos com doces. E que momento de mais liberdade que esse? Desejamos e comemos. É simples e pronto!
Seria tão bom se as coisas fossem mais flexíveis assim. Mas não são! Sempre vem um “depois” ruim e aquelas velhas cobranças que nos fazem não aceitar nosso corpo com prazer e que sempre nos deixam em alerta, encucadas quanto a tudo que vamos ingerir. Eu, por exemplo, sempre me sinto mal, culpada, fico lembrando das malditas calorias, do que elas podem fazer nas minhas pernas, das celulites, do açúcar.
Tá! É importante sim, lembrar de cuidar da saúde. Mas não adianta ter um corpo incrível e uma mente infeliz. Tem que haver sintonia, conexão, não uma briga intensa entre algumas vontadezinhas e a imposição da tabela calórica, que de boa só tem água e talvez alface.
Quanto a mim, vou indo ali sentir só o cheirinho do chocolate que ganhei no almoço!





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